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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011
Das caras-metade

Metade: Uma das duas partes iguais de um todo

 

Sempre me provocou muita urticária o termo das caras-metade, os companheiros perfeitos encontrados nos milhões de seres humanos espalhados pelo planeta, as sintonias musicais entre duas almas individuais, esse amor que se diz pleno, uníssono.

Primeiro, se são duas metades é suposto que haja um todo. E esse todo dirão já os românticos é o amor que sentem, a vida que partilham, os sonhos comuns.

Segundo, se são duas metades é suposto que se colem de alguma forma para criar o todo. E mais uma vez, dirão os românticos a cola é o amor que os une, os caminhos comuns da vida, as aspirações em coro.

Terceiro e por fim, se são duas metades, são iguais. E mais uma vez dirão os românticos são iguais por sentirem de igual modo, pelos sonhos gémeos, pelas preferências similares.

Não acredito nesse todo, nem nessa cola ou tão pouco nessa igualdade.

O todo do amor é muito mais do que dois indivíduos iludidos por fluxos de substâncias químicas (adrenalina, noradrenalina, feniletilamina, dopamina, oxitocina, serotonina e endorfinas). No puzzle do amor entram as peças da vida do eu, do nós, dos outros, do antes, do presente, do futuro, do “e se”, peças que se forçam quase até partir, outras que se partem, outras que se encaixam naturalmente, outras que se perdem, não há um todo. Logo não há partes iguais.

A cola? Há tantos fios invisíveis que nos prendem, quase tantos quantos os que nos afastam. Há fios fortes e fracos e nem sempre prevalecem os evidentes. As relações amorosas cor-de-rosa prendem-se pelo amor; mas as relações amorosas reais prendem-se tanto do amor, como de tantas outras coisas mais humanas como o medo, a carência emocional, a necessidade social de pertença, a sobrevivência, a estabilidade, a continuidade.

E essa igualdade? O amor é a coisa mais desigual, mais desequilibrada, mais injusta, nunca se dá na exata mesma proporção do que se recebe, não há resto zero na divisão da entrega, da força do sentimento, na expectativa.

Portanto se me veem falar de caras-metade, fico sempre apreensiva, tenho sempre a sensação que estou perante alguém que não percebe nada de amor, que fala em mais um cliché sem ter noção do que realmente tem no coração.

O amor é imperfeito. E é essa a sua verdadeira natureza. Querer encaixá-lo nas estantes dos romances é pura ficção literária.


sinto-me: De volta à escrita :)

Porta Aberta por claudia às 15:16
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4 comentários:
De mari a 30 de Novembro de 2011 às 21:18
gostei **


De claudia a 2 de Dezembro de 2011 às 15:31
Hum... mas algo me diz que és das que acreditam no cor-de-rosa... ;)


De Jorge Soares a 30 de Novembro de 2011 às 23:20
Olá

Eu costumo utilizar o termo " a minha meia laranja" ... porque não gosto de "a minha mulher", ela não é minha, só partilha a vida comigo e me atura, nem de "a minha esposa" .. até tenho dificuldade em perceber a palavra...

Acho que as pessoas utilizam a expressão por hábito e nem pensam muito no que quer dizer.... mas também não acredito muito que a origem do termo tenha a ver com amor... terá sim a ver com partilha ou com vida em comum.

Jorge


De claudia a 2 de Dezembro de 2011 às 15:31
Resumindo... falam por falar.


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