De entre as lutas mais complexas que travamos a luta interior é para mim uma das mais difíceis. Tenho para mim que é impossível o ser humano ser o mero resultado de uma evolução animalesca ditada por regras de sobrevivência. Primeiro, porque temos uma tendência natural para a extinção. Segundo, porque somos uma espécie de Frankeinsteins marcados por um sadismo, um humor negro que só poderia vir de uma mente - quiçá um pouco diabólica - com um sentimento de cientista louco...
Esta anatomia cerebral de dois hemisférios é o exemplo mais evidente. O ingénuo mortal vive dividido, logo pelo próprio constrangimento físico, na guerra interna do sentir versus pensar, do ser selvagem versus racional, da arte versus o cálculo, do poema versus o teorema. E o coração tão depressa descongela como congela, arrastando consigo dilemas existenciais.
Graças a esta piada retorcida, analisamos as situações da vida mais importantes sempre pelos dois lados. Do romântico ao prático, do sonho ao real, da possibilidade à probabilidade, do ar à terra... e dançamos entre um e outro num ritmo louco.
E como é possível analisar com o lado direito o que o coração sente com o esquerdo? Como é possível sonhar livre com o lado esquerdo o que o corpo exige com o direito?
Apesar de termos dois hemisférios só temos um coração. Somos fantoches de duas forças antagónicas internas. Criaturas condenadas à loucura.
Sabes, o amor não é um sentimento como os outros. No amor não se esquece, não se perdoa, não se ultrapassa como nos outros sentimentos. Até podia dizer que o amor nem é bem um sentimento, mas um estado de espírito (independentemente do significado real das palavras) porque no amor não se sente apenas, vive-se. E mais do que viver, vive-se também o outro.
Sabes, o amor não se conquista. Desenganem-se as leitoras das dicas das revistas, dos romances cor-de-rosa e da ficção amorosa. O amor nasce, cresce e … morre. Com sementes mágicas. Podes usar todos os truques de sedução, dizer as palavras que quero ouvir, pôr a mesa, a comida e a música. Faltará a ligação, o tom, o sabor. Não controlo o amor. E mesmo que quisesse do mais fundo do meu ser amar-te não o conseguiria, por querer. E olha, depois do amor morrer não há milagres de ressurreição. Os corações criam anticorpos e esse amor outrora enxovalhado já não consegue ligar-se a mais nada.
Sabes, o amor, o verdadeiro amor, não é para ser usado. É um demónio caprichoso: dá-te luz que te encadeia, dá-te asas que te tiram de pé, dá-te desejo que te enlouquece, dá-te sonhos que te adormecem, dá-te paz que te aprisiona, dá-te magia que te enfeitiça, dá-te dor que te mata.
Sabes, o amor é tão frágil como forte, doce como amargo. Tem paradoxos que parecem impossíveis mas que te levam aos extremos da tua vivência.
Sabes, tu sabes o que é mesmo o amor?
Somos movidos a amor. Infelizmente não dá para abastecer no ser humano mais próximo, não há indicações do amor mais económico (isto é, aquele que doa menos no coração), nem benefícios em talões de desconto.
Sem amor ou pior mal amados, tudo o resto não funciona. Não se mexe. O coração não bombeia sangue para qualquer outro ponto do cérebro, senão o encarregue de perseguir a busca pelo amor.
Activamos o piloto automático e este nosso corpo deambula e cumpre as obrigações. A alma refugia-se e chora, pensa e repensa, chora mais um pouco.
Por muito amigos dos nossos amigos. Por muito próximos da família. Por muito profissionais. Por muito que sejamos aos outros, ao não conseguirmos ser para nós, não o somos para mais ninguém. Offline. Indisponíveis. Exilados num comício de guerra interior, a reunir todas as tropas e delinear todas as estratégias para vencer esta guerra.
Surgem poetas, cantores, escritores, filósofos. Descobrem-se forças interiores para sobreviver sem esse amor. Renascemos todo o nosso ser em mil e uma esferas da personalidade que nos possam ajudar a superar este bloqueio. E milagrosamente inspiram-se até algumas obras-primas originais, que ganham um lugar no eterno abrigo de todos os corações carentes.
Um carro parado começa a enferrujar, e à sua volta crescem apenas ervas comuns num cenário de desleixo e abandono. Acredito que também a nossa essência, parada, pela falta deste combustível, se abandone do mundo. Eventualmente um dia, a imobilidade debilite as asas e fique incapacitada de sonhar.
Mesmo que um dia chegue o tal amor. Um dia já poderá ser tarde. Porque já poderemos ter sucumbido ao cerco e de tão cansados de lutar, com os olhos tão cheios de sujidade e resquícios de lágrimas, já nem consigamos encarar a luz do brilho do amor. E já debilitados talvez já nem tenhamos a força para arrancar e ganhar velocidade mesmo com o tanque abastecido. Um dia o motor fica estragado e a vida já não arranca.
As resoluções têm um poder revolucionário na nossa vida. Naquele momento em que decidimos mudar, conquistar ou simplesmente sonhar, tudo parece mudar. De repente enchemo-nos de um força capaz de mover as montanhas interiores e ignorar ou explodir com as montanhas exteriores.
O processo da revolução pode ser imediato ou moroso. Mas o momento a seguir é sempre de euforia e grandiosidade.
O pior, é que quase sempre o momento a seguir é um momento efémero. E a resolução, aquela chave de sucesso e felicidade que abriria uma nova porta, fica ali, à espera. De outro momento.
Um destes dias, inspirada por aqueles anúncios dos cafés, disse um dia vou gostar de mim acima de tudo o que resto. Hoje é o dia. Claro que durou apenas um momento. De repente e quase imediatamente o mundo voltou a engolir-me.
Só quem é mãe conhece a sensação de felicidade de aconchegar um filho adormecido e olhá-lo a dormir tranquilo com a certeza que está bem alimentado, saudável, numa boa cama e feliz. Estes momentos nocturnos de paz e plenitude são únicos e fazem-me suspirar de alegria, com a contestação incrédula sobre a imensidão infinita do amor que sinto por estas duas minhas criaturinhas adormecidas.
E ao mesmo tempo faz-me pensar e agradecer na sorte que tenho em lhes poder proporcionar tudo o que têm, na sorte deles em viverem amados. Num mundo tão desequilibrado, com tanta miséria, com tantos milhões a passar fome, frio, sozinhos, mal tratados. Fico triste a pensar naqueles que não dormem assim, tranquilos, aconchegados, sem sonhos embalados por estas festinhas nas cabeças e sem estes beijinhos nocturnos.
Não sou rica. Mas sei que tenho muito mais do que muitos que sobrevivem sem o sabor merecido da vida. E às vezes (tão poucas) tomo consciência que afinal tenho tanto, que sou privilegiada e simultaneamente ingrata por não valorizar decentemente o que tenho.
A injustiça é dos sentimentos que mais magoa. E magoa num sentido proporcional à união que temos face a quem nos injustiça a alma. O que dói é a falta de reconhecimento do valor de um esforço. Quem não reconhece, não valoriza. Quem não valoriza, não tem a mesma ordem de valores e princípios que julgávamos que tivesse. E esta decepção, esta realidade que entretanto se desequilibra faz-nos cair sem a rede que julgávamos existir. O que magoa é este engano. O não termos avaliado. O não retorno do investimento.
Existem sentimentos espinhosos: traições, impotência, hipocrisias. Sentimentos que nos magoam porque rasgam a armadura com que julgáramos ter protegido o nosso coração e ego. A injustiça vai mais além, remete-nos para uma consciência menos inteligente, impõe a crueza de um engano no qual apostámos demasiado. Mente, coração, ego. E dilacera-nos em todas as frentes da batalha. Sem que fossemos capazes de prever, sem termos conseguido antecipar, minimizar, elaborar planos de contingência...
A injustiça. Porque afinal o espelho tem muitas imagens. E o reflexo que vemos das nossas acções, afinal é visto por outro prisma pelos outros. E magoa estarmos orgulhosos de uma imagem que aos olhos de alguém que nos é importante afinal nunca existiu.
E é nestas alturas, que cobardemente, o ser encolhe-se, isola-se magoado, rastejando para lamber as feridas.
As pessoas têm falta de sexo. Os olhares vazios, as posturas encolhidas, os discursos arrogantes e ultra racionais, as frustrações mal digeridas... Falta algo. Algo que alimente a cor da alma: sexo.
Como dizia o poeta contemporâneo Abrunhosa, "quando todos vão dormir é mais fácil desistir". Chego à conclusão que desistir não é, nem tem de ser, uma consequência do fracasso... é uma estratégia de sobrevivência.
Estúpida. Parva. Idiota. Burra. Cega.
Um dia destes este blog resvala para um diário sentimental, sem piada nenhuma...
É como me sinto hoje. Porque basta perdermos algo para valorizarmos o que tínhamos. Porque bastou deixar o filhote na escola, para voltar a ter saudades do tempo (ontem) em que andava aqui por casa aos berros e às birras. Porque bastará recomeçar a trabalhar para ansiar pela sexta-feira e ter vontade (todas as manhãs) de prolongar a minha estadia aqui por casa. Porque bastará deixar a pequenota na escola para sentir o meu colo vazio. Porque bastou o marido ir trabalhar para ter vontade de partilhar um pequeno almoço...
Afinal odeio o silêncio. Afinal odeio a solidão. Afinal quero que o tempo volte para trás e seja novamente o primeiro dia de férias, aquele em que o papá veio maluco do trabalho e fomos todos petiscar para o café...
Não me compreendo. E pronto, fica a culpa e o remorso por não ter aproveitado talvez o tempo (que parecia demasiado) disponível ao máximo, fica a culpa e o remorso por não ter arrastado as pernas para mais aquela corrida no jardim, fica a culpa e o remorso por não te ter dado o beijo que apaziguaria o cansaço...
Agora, remói, e remói, e remói... fico para aqui a ruminar as memórias e as minhas parvoíces.
Definitivamente, prometo que não volto a desabafar em forma de post. Mas neste momento não me sai mais nada.
PS - Hoje devo ter envelhecido uns 10 anos ao deixar o pirata na escola...
Portas de Casa
Portas do Contra
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Portas de Pensamentos