Nunca vivi fora de Portugal. Provavelmente é um dos meus handicaps. Nunca senti verdadeiramente a necessidade de mudar, viver e trabalhar noutro país. Não porque ache que aqui é o melhor, nem tão pouco que lá fora é que é mesmo bom. Aliás sou céptica à poesia das personagens iluminadas que proclamam que lá fora é muito melhor que aqui, mas que inevitavelmente regressam ou querem regressar mais tarde (acho que perdem toda a credibilidade em voltar para algo manifestamente pior do que apregoam…).
Não sendo nacionalista, reconheço que temos coisas muito boas (como qualquer país) que fazem parte da nossa identidade colectiva. Gastronomia, futebol, fado, paisagem… teria muito a dizer sobre cada uma destas coisas, que acho que estão em manifesto declínio, embora fique para um outro dia.
Hoje o que me chama a atenção é mesmo a burrice, a teimosia e mesquinhice rural e a capacidade de inventar sketches humorísticos.
Não interessa se estamos em bancarrota, não interessa se não há classe política que lidere o país, não interessa se o crédito e as dívidas se acumulam, se o espectro do desemprego e da dificuldade económica se alastre e agrave.
O que interessa é poder continuar a tomar o pequeno almoço no café, o que interessa é fazer uns sketches sobre a chegada do FMI, sobre a imagem do Sócrates, sobre a última gaffe política ou futebolística, vestir a pele do cão a rir, é fazer do telejornal a primeira novela do rol das que ocupam o horário nobre da cultura televisiva, é ir de férias de Páscoa para a terra, ou para fora, especialmente Cabo Verde que é mais barato ou para o Algarve para casa de um primo com o novo iPad.
Afinal de que vale viver sempre a pensar nesta crise ou a chatearmo-nos com isto? Afinal isto até já chateia, sempre a mesma coisa. Alguém há-de pensar, alguém há-de subsidiar e nós entretanto vamos ali à praia, beber uma cervejinha… afinal somos um povo tão amável que haveremos de pedir ali um favorzinho, acompanhado com um bom vinho e um docinho de ovos.
Ou não. Medidas austeras, PECs e FMI hão-de ser sempre apenas o penso de emergência para a ferida. A doença continua. Interna. E agora esta chuva que veio estragar os cafés na esplanada, as idas à praia dos desempregados e dos gazetas? Bolas, logo agora nas férias…
Ontem, hoje e nossos próximos tempos vai-se falar da crise política, da demissão do PM, da corrida às eleições, do FMI e do impacto na crise social e económica do povo. Este não é um blog político e (infelizmente) não tenho suficiente conhecimento histórico e actual ou interesse para me debruçar sobre o tema.
Top ten das coisas que mais me frustram e irritam sobre esta matéria
Cansam-me as dezenas de emails indignados com listas de boas remunerações em tempo de crise. Cansam-me os cartoons da relação injustiçada entre o Zé povinho e o governo. Cansam-me as piaditas com o Sócrates, o diabo e outras personagens. Cansam-me os vídeos super inteligentes com um historial que não resiste às incoerências temporais.
Não que seja do PS, nem simpatizante do mesmo. Mesmo nutrindo um sentimento abominável pelas políticas e personagem do senhor engenheiro(? ) que lidera o (des)governo deste país. Não que participe de algum movimento político.
Mas este sentimento de vitimização, de crise, de tragédia fadista, de pobrezinhos labregos versus os monstregos políticos empresários e capitalistas, cansa-me. A mesma lenga lenga. Sempre o mesmo queixume. Na hora do café, na paragem do transporte público, no dialecto do taxista, no slogan do jornal, na conversa do corredor, no email. Fala-se da crise, como quem fala do tempo. Por falar.
E ai, ai, ai…
Mas o que mudam? O que propõem? O que fazem? No que pensam?
O problema é que se gosta de fado, mas não se sabe tocar guitarra, nem tão pouco montar um palco. O problema é que se fala, se critica, se denuncia… mas depois, depois, depois o quê? Não há depois. Espera-se, espera-se… e queixa-se, queixa-se.
As gentes portuguesas andam pouco de transportes públicos. É pena. Não pelo aspecto ambiental ou económico, que o pessoal ignora o primeiro e sobrevive com o segundo.
É pena, pelo aspecto cultural. Pena, porque existe uma tertúlia elitista que só se reúne nestes meios de transporte e desse modo apenas acessível aos possuidores de cartão válido. Porque nos transportes públicos concentram-se todas as mentes brilhantes do país.
Eu própria frequento diariamente um destes eixos de sabedoria e fico sempre surpreendida porque que raio este pessoal não está em cargos onde possam aplicar todas as suas teorias. Desde a política, em que se debatem fervorosamente o estado da nação, se comentam os aspectos relevantes dos últimos actos governamentais, se fazem previsões e inclusive se obtém uma inside information sobre a vida privada dos governantes.
Desde a economia onde se desenvolvem modelos fruto de profunda análise, passando pela complexa teia do relacionamento patrão/empregado/sindicato, lançamento e extinção de produtos de mercado, publicidade e estratégias empresariais e inclusive se obtém uma visão única sobre a eficácia das últimas tecnologias e uso da internet no ambiente de trabalho.
Desde o social, a família, o vizinho, até ao mundo do cor de rosa. Com comentadores assíduos e gurus perante qualquer revista, telenovela, relacionamento, cunhado, sogra, conhecido ou o gajo que manda sms anonimamente mas que a gaja não apaga para mostrar às amigas.
E o desporto… desde os jogadores, treinadores, seleccionadores, campeonatos e jogos existem especialistas para cada clube, impressionante!
A sapiência não tem limites e tudo o que é especialista viaja em hora de ponta, cheio de argumentos, entre o café da manhã e a corrida para o emprego, onde obviamente tanto talento analítico é desperdiçado. Talvez por isso todos se queixem do que ganham.
Talvez por isso existam tantos condutores medíocres, coitados sem opinião e que por isso ficam confinados ao silêncio e a ouvirem notícias na rádio. O único ponto bom é que o tuga vai desenvolvendo alguma capacidade de resistência nervosa ao volante e inclusive brevemente até poderá utilizar legalmente o facebook e outros afins utilitários enquanto conduz (legalmente, porque há muito boa e inteligente gente que já o faz).
Mas que raio de mania do pobre queixar-se do snobismo do rico? Que mesquinhice prolifera em tudo o que são opiniões anónimas de jornais gratuitos, portas de casas de banho, blogs com instintos comunistas e afins sobre os privilégios, bens e supostas atitudes imorais dos abastados? Que falta de humor e originalidade com que são aplaudidas as piadas de ricos e pobres, os casos mediáticos julgados por todos e por ninguém, as fábulas do bom pobre e do mau rico. Que cobardia e ignorância alimentam as calúnias públicas e inspiram as teorias de conspiração e perseguição dos pobres pelos ricos?
As bombas de gasolina são desenhadas única e exclusivamente para homens.
Podemos começar com a maquineta da pressão de ar dos pneus. Mas que mulher consegue manter uma postura decente enquanto se debate com a mangueira emaranhada de 3 metros, baixar-se ao nível do idiota do pneu (as calças justas ou uma saia assumem-se verdadeiros desafios), olhar para o alto do mostrador e conseguir enroscar a m* dos pipos enquanto evita uma despesa na manicure, as mangas sujas e o salpico do marmelo que passou rentinho a nós? Conseguem pensar em algo mais ergonómico? Ou simplesmente gostam de nos ver de rabinho alçado e de mau-humor?
E as bombas? Aqui as mangueiras são sempre curtas, para quem estaciona do lado contrário à dita. Depois é inalar o perfume duradouro do dito combustivel, lixar as mãos nos toalhetes (se ainda restarem alguns), rezar para não prender os saltos nas redes de escoamento à entrada da loja e pagar. Claro que não convém consultar revistas ou jornais, porque para além da sua instalação estratégica e inteligente junto aos sensores das portas automáticas, ainda somos fulminadas pelo olhar do macho mecânico que nos considera peixinhos dourados fora do aquário. Claro que até chegar a nossa vez, temos de esperar que o picuinhas da frente verifique se não lhe riscaram o carro, meta a zero o número de kilómetros percorridos, ajeite-se no banco e arranque com pisca e devagarinho...
Quanto às maquinetas para lavar o carro manualmente, nunca experimentei. Por não ter a mínima pachorra, mas também porque no dia que vir uma mulher a usar a lavagem, vai existir uma audiência masculina (in)discreta a fantasiar as meninas de t-shirt molhada. Já levei o carro muita vez à lavagem automática e mesmo assim já fingi não ter ouvido algumas bocas de baixo nível.
Claro que as brasucas nas caixas com unhas de gel rosa choque não contribuem para a imagem da mulher moderna independente.
E atenção os meus 150cv deixam muito machito para trás. Sem medo. E sem conhecer o abc do motor.
Onde raios se esconde a pimbalhada toda que invade Portugal no Verão? Digam-me para no próximo Inverno ir trancar a porta... Isto é só festas populares com artistas de qualidade...
PS 1 - Ainda me converto ao twitter....
PS 2 - Já venho escrever um post (digno do nome)...
Vem no i (um jornal que me começa a despertar alguma empatia) um artigo sobre gorjetas. Se há coisa que abomino é a gorjeta. Sem há quem abomino é quem a espera. Se há quem me irrite é quem a dá descaradamente para que os outros o vejam.
Obviamente que não a dou. Obviamente que não tenho dinheiro para dar a todos aqueles que me prestam um (bom) serviço - e se for a pensar os bons serviços até são raros, logo seriam poucas as gorjetas que teria que distribuir...
Há quem dê gorjeta no restaurante, quem dê na esplanada do café, quem dê no cabeleireiro, quem dê ao gajo que acarreta as malas, quem dê ao moço que vem instalar/reparar alguma coisa lá por casa... Há quem dê e quem as espere como se fosse certo, merecido e obviamente aguardado. Há até quem olhe de lado quando a dita é inferior a 2€. E nós até somos dos países onde não há a "tradição" da gorja.
Mas os funcionários não são pagos? E não são pagos para serem profissionais? E serem profissionais não implica prestarem sempre bons serviços? Eu por aqui não sou a mamãe Noel para distribuir prendinhas... Sim, sim, quem dá a gorjeta quer gratificar quem lhe prestou um serviço para além do obrigatório, isto é, com um sorriso, com uma simpatia, com um favorzinho... Não sei se é só no mundo em que trabalho, ou no sub mundo em que me governo, mas eu tenho um ordenado ao final do mês. Esse ordenado é a paga (se bem que deficitária) do meu contributo de valor para a empresa. E até aturo alguns clientes. Normalmente chegam até mim quando as coisas ficam mesmo queimadas (no sentido literal) ou muito, muito aquém das expectativas... E não é por resolver os embrólios com o meu charme natural e doses absurdas de paciência, simpatia e diplomacia que ganho qualquer gratificação extra. Nem por trabalhar fora de horas quando necessário para fazer favorzinhos. Porque raio por servir um café no tabuleiro têm que receber mais do que vale o café? E porque raio se para me cortarem o cabelo ainda têm que receber 10% do preço do champõ? Para isso dava o dinheiro para a cadeira de massagens que essa sim, não recebe nada e trabalha bem.
Não é forretice. É príncipio. Para mim não faz sentido. Perguntem lá aos moçoilos dos call centers se recebem gorjetas por cada chamada que resolvem com a simpatia escrita no formulário por aturarem as reclamações dos clientes? E as moçoilas das caixas de hipermercado que automaticamente abrem as bocas em sorrisos de bom dia a um ritmo de caixa se recebem gorjas por aturarem as filas de fim de semana?
E também não dou trocadinhos a arrumadores de carros.
E peço sempre as facturinhas...
E os livros de reclamações...
E se me demoram muito a atender em restaurantes... até já saí da mesa sem pagar as entradas...
Este chegou-me por email... obrigado colega!
O URGENTÁRIO - FUNDAMENTAL PARA EMPRESAS EM QUE TUDO É URGENTE
| SAN | SEX | TER | SEX | QUA | SEX | QUI |
| 8 | 7 | 6 | 5 | 4 | 3 | 2 |
| 15 | 14 | 13 | 12 | 11 | 10 | 9 |
| 22 | 21 | 20 | 19 | 18 | 17 | 16 |
| 29 | 28 | 27 | 26 | 25 | 24 | 23 |
| 36 | 35 | 34 | 33 | 32 | 31 | 30 |
Existe uma coisa fantástica na internet (para além do meu blog): as compras online. Este tipo de comércio corresponde teoricamente a muitas das minhas expectativas: comprar a partir do conforto de casa, poder escolher com calma e comparar exaustivamente preço e produto, não ter de lidar com a gentinha das lojas que só está ali para receber o seu no final do mês e quando vê um cliente só falta tirar a pistola de trás do balcão, não tenho que me preocupar com o estacionamento do carro, enfim... supostamente só teria vantagens. E tenho, até ao momento de receber as encomendas. Eu já devia saber que nunca, nunca posso lidar com algo que envolva os CTT de Portugal. Já anteriormente me cruzei com a necessidade de escarnecer do serviço (http://semchave.blogs.sapo.pt/2910.html), mas hoje tive novamente o prazer de (sobre)viver nesta experiência inesquecível.
O serviço abre às 9h, às 8h30 já havia fila, ou melhor, um ajuntamento popular à porta do serviço (até aqui nada de especial, serviço público é mesmo assim: centros de saúde, repartição de finanças, lojas do cidadão, e por aí adiante). Obviamente, que Portugal se encontrava representado neste agrupamento: não faltava a velhota queixosa das suas 1001 maleitas piores que as da vizinha, a mulherona de meia idade que pensa que domina o resto do mundo para lá da banca do peixe que vende, o velhote com a unhaca à guitarrista e os pelos do peito à mostra, a brasileira (sim, já se pode considerar que faz parte da populaça portuguesa, pelo menos em número já ocupam uma % significativa) com os corsários a rebentar no rabo e o puto ranhoso a fazer a birra matinal aos avós que aceitaram misericordiosamente tomar conta dele nas férias da escola enquanto os pais trabalham para lhe pagar o próximo ano na escola.
A estação abre exactamente as 9h... não para atender os clientes, mas para apanhar as cartas espalhadas pelo chão, porque dado o vandalismo que caracteriza o civismo das nossas gentes as caixas exteriores estão encerradas. As 2 funcionárias lá se distribuem pelos 5 balcões, ligam calmamente o sistema das senhas, arrastam-se para as cadeiras e continuam com a tromba dum elefante sem ração. O correr para a máquina das senhas lembrou uma corrida aos saldos digna de uma loja da Zara! Claro que das 6 opções da máquina, apenas a do atendimento geral estava disponível (são só 2 funcionárias e além do mais isto aqui não é para especialidades). A nova máquina automática dos selos também estava fora de serviço (se é que alguma vez esteve ligada)!
Lá chega a minha vez e para além da simpatia habitual sou informada que posso voltar para trás, porque apesar de já ter recebido a ordem de expedição da encomenda à mais de uma semana, como ainda não recebi o aviso dos CTT tenho de aguardar...
FONIX! Este deveria ser o slogan dos CTT.
Portas de Casa
Portas do Contra
Portas de Mãe
Portas de Mulher
Portas de Pensamentos