Com a aproximação da minha data do aniversário eis que surge a inevitável questão dele sobre o que quero para assinalar a data. Pergunta que este ano está revestida a culpa, não só pelo facto de (novamente) não saber o que oferecer, como por não poder estar presente.
E claro que a resposta segue automática, o que quiseres comprar, não é isso que é importante. Tão automática como falsa (todos gostamos e esperamos receber algo), apenas porque não gosto de dizer o que quero e prefiro que pense um pouco, ou melhor, quero acreditar que me conhece e sabe do que gosto.
Mas depois do telefonema, e porque o silêncio já dormia em casa, eis que me deparo com uma realidade estranha. Afinal não sei mesmo o que queria que me oferecessem. Sim, para além dos mimos de mulher que quero todos os dias (não são esses, mas do tipo roupa, perfumes e futilidades afins), tudo o que quero realmente só depende de mim. Tão simples como isso. E constato que me habituei nestes anos a criar uma independência no que toca à minha felicidade, à forma como a conquisto, ao que quero e não faço depender de mais ninguém.
Esta situação faz-me ponderar se estou cada vez mais forte ou cada vez mais isolada. Não sei. Não sei o que quero dos outros... para além dos afetos, palavras, partilhas, abraços, carinhos, amor, gestos e demonstrações que os tornam parte do meu coração. Talvez na verdade não seja suposto querer mais do que isso (já tão difícil às vezes).
O que quero e espero dos outros fica uma incógnita a meio da minha vida…
Quando colocamos em causa princípios que considerávamos sagrados é coragem ou cobardia?
Ignorar, ultrapassar, silenciar, aceitar e até valorizar o que num passado distante e ao mesmo tempo tão próximo, algo a que um dia disséramos nunca. É insanidade, crescimento ou alheamento?
Prolongar situações que um dia considerámos inaceitáveis é cobardia? Cobardia ao prolongar um casamento, mesmo que tenham sido quebrados os princípios da fidelidade ou da promessa herege de amar o outro eternamente (como se pode prometer isso?!). Cobardia em viver um estilo de vida que um dia abominámos e criticámos. Cobardia em aceitar algo abaixo do que cremos merecer, apenas porque esse algo é melhor do que nada. Será que podemos chamar cobardia quando sucumbimos ao comodismo, à necessidade, a um bem maior. Será que começamos o caminho de negação do nosso eu verdadeiro? Será que nos vamos perdendo, fugindo cobardemente, em função de algo que a nós se sobrepõe?
Mas, se de repente colocamos em causa algo em que solenemente acreditámos, pode significar uma mudança interior e uma coragem extraordinária em dar um passo naquela estrada alternativa que sempre ousáramos pisar.
Colocar em causa uma família tradicional em prol de uma relação homossexual. Colocar em causa uma religião que sempre se afigurou natural pela simples impressão precoce numa infância ingénua. Colocar em causa uma obrigação social com que não nos identificamos. Será coragem quando abalamos os pilares da nossa vida e mudamos os ponteiros da bússola que nos rege? Será sinal de nós próprios mudarmos e termos a coragem de o assumir?
O que é mais difícil: ser feliz sozinho ou ser feliz acompanhado?
Para além das tretas dos animais sociais, que não vivemos isolados em ilhas e afins, é viável viver sozinho. Não só viável como acredito (daquelas fés cegas sem experiência própria) ser possível atingir um grau de felicidade satisfatório sozinho. Dependendo da companhia que fazemos a nós próprios, do quanto vivemos a vida, da nossa realização perante esse estatuto de exilados numa sociedade de redes sociais – virtuais, formais, legais, familiares, obrigatórias, falsas, …
Acredito que a autonomia, a independência, a liberdade e a paz interior sejam os 4 ases neste solitaire com o tr(i)unfo em sermos sempre o que somos de verdade. Sem máscaras, sem cedências, sem limitações ao nosso ser.
Mas fica por provar, talvez tornando-se sacrificável um dos ases (ou até todos), o gosto de uma companhia, a partilha de uma experiência, um toque de alguém que nos desvende outros mundos. E esse “se”, torna-se num “gostava”, num “precisava” e eventualmente num desgosto se não se alcança. Uma mancha negra com o brazão da solidão.
Por outro lado, temos os entrosados. Os que pertencem a círculos sociais de amigos, famílias, relacionamentos. Estes vivem em complexas teias de sentimentos, que auto-interagem e se influenciam mutuamente, num caos de vivências emocionais partilhadas. Propagam-se ondas de afecto real com ódios e tristezas resultado desta convivência em sociedade.
Acredito que a companhia, a possibilidade de ajuda, a vivência em conjunto e a partilha sejam os 4 ases neste jogo de pares entre nós e os outros. Nem sempre somos nós de verdade. Mas temos sempre quem nos veja e ouça.
Mas fica o "se" eu estivesse sozinho fazia à minha maneira, não tinha esta chatice, não tinha esta obrigação, não tinha de fazer isto, não tinha de …
Fica a dúvida existencial, o que é mais difícil: ser feliz sozinho ou ser feliz acompanhado?
Este era para ser um daqueles posts à twitter de dúvidas existenciais… mas afinal…
10 Coisas (demasiado) complicadas que nos preconizaram como simples – por ordem crescente de dificuldade:
Quando queremos algo, será que devemos pensar mais no que ganhamos ou no que vamos perder?
Porque não sei o que me faz mais triste: se a felicidade de quem me faz infeliz, se a infelicidade de quem me faz feliz... Esta devia ser fácil. Acho que é por não ser boa rês.
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