Esta coisa de ir à vida, vivendo, tem uma daquelas coisas da vida que rasgam os corações: é que a gente vai à vida e quando emerge da vida, respirando, ou quando sai da vida, morrendo, já não somos quem fomos, quando começámos a viver.
Para lá das coisas que aprendemos nas experimentações da vida, coisas que nos moldam e mudam a forma do ser, há outras vidas que com a sua força nos mudam os eixos de rotação da nossa vida. Saímos da órbita da carta astral delineada.
E, para lá das outras vidas alheias, há vidas dentro da nossa que exilam a primeira essência para um canto das memórias de outrora. Surgem estes novos heterónimos, fruto do nascimento de filhos, de amores e desamores profundos, de saltos suicidas do alto dos sonhos mais queridos, de ambições, de imagens idolatradas que encarnamos.
Vivemos da vida e consumimos o que somos, o que éramos, desabrochando noutros seres. Somos mais da vida e menos de nós.
E de repente, naquela imagem que nos surpreende do reflexo inesperado, pensamos quem és tu que me olhas com o meu olhar? De onde vem esta expressão na minha cara? Por momentos, colocamos em pausa o piloto automático que nos dominou, e olhamos para o que andamos a fazer da vida, da nossa vida, do nosso eu…
Cada um tem o que merece.
O universo rege-se pelas leis do antigo testamento, olho por olho, dente por dente. Provavelmente esta é a única opção para possibilitar o equilíbrio. Longe das hipocrisias ocidentais das sociedades civilizadas, onde se fala em dar a outra face, em fazer o correcto mesmo a quem nos faz o incorrecto, dos horrores das barbáries pelas fés extremistas, dos rituais tribais… Longe das dissimulações no paradoxo da realidade intimista de quem pratica ou gostaria de praticar linchamentos públicos mediáticos, onde se convive com frustrações acumuladas e desespero pela injustiça divina que não amaldiçoa a sorte do vizinho infame.
Se nos acontece algo de bom, nem sempre o valorizamos, aclamamos a sorte, a coincidência, a naturalidade das coisas como algo que merecemos e nem questionamos não ter.
Se nos acontece algo de mau, vitimizamos a tragédia, amaldiçoamos o universo, renegamos deuses e culpamos o fado do destino.
Mas afinal todos já magoámos, voluntaria e involuntariamente, já nos vangloriámos orgulhosamente, já rogámos pragas, já escondemos, magoámos, enganámos, provocámos dor, mágoa e angústia. Já choraram por nós. E isto pesa no prato da balança. E acumula.
E chega uma altura, normalmente mais tarde, quando a memória cega o passado, que nos despejam no prato o esgoto das acções para equilibrar o lado bom da vida. E chega a tragédia injusta. Porque raio isto está a acontecer-me, a mim?
Claro que há inocentes que sofrem o que não merecem. Claro que me custa a compreender e é-me impossível aceitar tal. Mas a dor que eles sentem, multiplicar-se-á na dor dos culpados? Como a dor que um filho sente que castiga cruelmente um pai? Será que há uma cadeia que justifica todo esse sofrimento de inocentes? Por vezes nações inteiras?
Do pedestal da nossa sociedade cortês é difícil compreender estes desígnios primitivos. Mas existe algo que faz com que cada um tenha o que merece. Mais tarde ou mais cedo.
O fenómeno das massas é algo invulgar, interessante e impressionante. Para além das concentrações em prol do apoio (?) a uma equipa, em prol da comunhão (?) de valores religiosos, em prol da luta colectiva (?) na conquista de privilégios laborais, em prol de linchamentos (?) públicos, em prol de acções estratégicas militares (vulgo guerras), em prol de partilha (?) na solidariedade sentida… seja qual a razão que une um conjunto de indivíduos diferentes em função de algo suficientemente comum que permite a coesão em grupo, é um prodígio social.
Não pela capacidade rara de existência de algo que una as pessoas, num momento temporário e por vezes efémero. Nem tão pouco pelo número de pessoas que se conseguem concentrar por vezes em espaços para além da lotação esgotada. Para mim, o fantástico destas situações é o nascimento de um sentimento indefinido que se revela pela sensação de pertença a algo e por toda a corrente de sentimentos que daí advêm, desde a coragem dos cobardes, até à cumplicidade do anonimato, passando pelo afastamento da solidão.
A minha formação académica centra-se na informática e na gestão. Também não dedico tempo para a literatura que provavelmente inunda sobre estes temas sociais. Sem qualquer base que me faça ultrapassar esta ignorância e esclarecer estas curiosidades, limito-me a constatar divertida, que afinal somos todos muito mais iguais do que aquilo que nos esquecemos diariamente. O muito mau e o muito bom da raça humana liberta-se quando afastamos a camada de verniz com que cada um pinta o seu ser. Como em muitas outras situações é nestas nudezes da alma que se revela a natureza crua das coisas.
Sem querer me aproveitar do momento cinematográfico do Sexo e da Cidade 2 (confesso que não vi, nem faço tenções de ver*) lanço o repto: afinal, até que ponto a nossa imagem, a roupa e acessórios que usamos nos influenciam o ser, quem influencia quem? Nós e a nossa maneira de estar criamos uma certa imagem ou pela imagem que criamos levamos à definição do nosso ser?
Adoptei um novo look. Cortei o cabelo, numa tentativa de ter um penteado e até o colori. Confesso que ainda me estou a adaptar, mas o (simples) facto de mudar já é positivo. Procuro ir renovando o roupeiro apostando em novas peças (aos poucos, que tudo é abusivamente caro e a mim ninguém paga mudanças radicais de visual ou profissionais ao meu dispor). Porquê?
Não se trata (ainda) de nenhuma crise de rejuvenescimento de meia idade. Não se trata de nenhum processo pós-separação. Não se trata de um novo desafio profissional. Não se trata de um novo círculo de amigos. Não se trata de uma fase influenciada por nenhuma amiga, actriz, filme, nova filosofia ou religião. Trata-se de uma vontade minha. Apenas. De ir mudando. Porquê?
Sem ataques de snobismo, comecei a valorizar um pouco mais de sofisticação, um pouco mais de vaidade, um pouco mais de "cuidar de mim". E é aqui que surge a pergunta: esta vontade de ser assim, vem de mim enquanto eu, ou vem como círculo vicioso da imagem que fui (inicialmente por motivos profissionais) desenvolvendo?
E eis que não sei responder. Já não sou eu se me vestir como à 10 anos atrás. Mas a maior parte de mim, interiormente, ainda é a mesma. Nestas questões da imagem é que não. Até poderia ser sintoma de alguma maturidade ou idade (e nestas coisas entre os 20 e os 30 há uma enorme diferença). Mas não acho, até porque (ainda) não detecto nenhum salto significativo (estranho, …). E continua a questão.
A dúvida, se a imagem não provoca mudanças subconscientes na nossa maneira de estar, silenciosas e sem pedir permissão. Talvez ao apostarmos na imagem tornamo-nos diferentes em função dessa própria imagem. Afinal, para a maioria dos outros, somos aquilo que parecemos ser (e se formos fieis a nós próprios, isso que parecemos ser é consistente - em grande parte - com o que somos). E todos agimos em função dessas aparências. Quem sabe, nós próprios?
* pela mesma razão que não assisto a desfiles de moda, nem compro a vogue, nem revistas de decoração de interiores ou de viagens: não me apetece pagar dinheiro para alimentar a minha frustração de querer ter o que não posso pagar, não que inveje nenhum dos estilos de vidas das personagens, mas as roupas e sapatos (bolas, sou – mesmo - mulher!)…
Gostamos demasiado de abrir a boca e mandar para fora abortos de pensamentos. Esta deficiência genética é provavelmente justificada pelos parcos milhares de anos de evolução da espécie humana. Tirando alguns espécimes excepcionais, que entre nós apelidamos de sábios, a maioria raramente consolida o raciocínio antes do discurso, seja nas conversas de café ou nas apresentações formais e profissionais. Seja por falta de tempo, incompetência, ignorância, preguiça ou fala precoce. E é sobre esta antecipação que leva à falta do prazer de um bom argumento que gostaria de dissertar hoje.
Talvez pelo zapping em centenas de canais, pela leitura dos títulos e sub títulos de uma dezena de jornais e revistas, pelo click em dezenas de links informativos e portais, pela leitura de dezenas de blogs, … ficamos num caos de notícias interrompidas, a braços com a impossibilidade de aprofundarmos o historial e os porquês de cada evento. Pouco ou nada retemos, pouco ou nada seleccionamos, de pouco ou nada construímos as memórias do actual.
Talvez pelo ritmo dos dias. Talvez pelo banalizar dos problemas. Talvez pelo mediatismo do ridículo.
E desta forma assistimos e participamos numa inconsciência colectiva, sem nexo. Debatemos o sem fundo das gaffes sociais e políticas, dos escândalos, de tudo o que pisca e ofusca, afundando-nos no deserto da areia com que nos deixamos iludir.
E esquecemo-nos, ficamos sem tempo, para encontrar razões. Por vezes, podemos até viver no vazio sem ter razões pelas quais lutar. E simplesmente falamos por falar, como quem simplesmente vive por viver…
Gostamos de promover o nosso marketing pessoal com o slogan de sermos diferentes, únicos. Seremos realmente diferentes entre nós? Se sim, o que nos torna únicos?
Quando as hormonas da adolescência nos possuem, refugiamo-nos na música, na roupa, no cabelo, nas teorias para apelar a uma individualidade. Mas na verdade, essa individualidade apregoada mais não é do que um chamariz para a inserção num grupo de outros iguais a nós.
Supostamente, depois crescemos e transformamo-nos em borboletas singulares. Mas vivemos em grupo, numa sociedade de ilhas, mas sempre com um foco subconsciente de pertença a um grupo.
Mas nestes grupos, temos ainda a pretensão da singularidade... Fazemos todos o mesmo. Sentimos todos as mesmas angústias primitivas. Rimos todos pelas mesmas coisas. Amamos.
Para além da publicidade dos perfumes de massas, afinal o que nos torna the one of a kind?
Uma beleza exterior extraordinária? Um trabalho que nos coloca numa posição efémera de poder? Um dom de fazer algo? Uma forma de pensar por outro prisma? Um carisma invulgar? Uma capacidade social de atracção ou repulsa anormal? Uma projecção social mediática? A autoria de um livro, de um espectáculo, de um projecto? A descoberta de algo diferente e interessante? A vivência de experiências extraordinárias: viagens, convívios, culturas?
Há pessoas que se distinguem. Por boas e más razões. Há um ditado chinês que vaticina: o prego que se destaca leva com o martelo. Quem sai da mediocridade é um alvo. De um simples olhar, de um comentário, de projecções, de críticas, de obcessões.
Somos únicos pela forma como vivemos, interiorizamos e reagimos às experiências que acumulamos no nosso percurso de vida. Podemos ter percursos similares, mas cada qual enfrenta-os, ultrapassa-os e assimila à sua maneira. Maneira que vai sendo desenvolvida desde os primeiros dias, desde as primeiras iteracções com o mundo. E seremos únicos até ao fim.
Como dizia o poeta contemporâneo Abrunhosa, "quando todos vão dormir é mais fácil desistir". Chego à conclusão que desistir não é, nem tem de ser, uma consequência do fracasso... é uma estratégia de sobrevivência.
Descansar numa NUVEM. Sentir o SILÊNCIO de um momento. OBSERVAR o que me rodeia. Conseguir ouvir a minha MENTE. Ter a LIBERDADE de viver o meu tempo. Navegar num MAR tranquilo. ADORMECER sem hora para acordar. Poder ESQUECER. Abraçar o VENTO e respirar. Tomar banho e ouvir a ÁGUA a cair. ANDAR sem correr. Ter a espontaneidade de parar e SONHAR. Passar a outro a RESPONSABILIDADE de crescer. Largar de vez a CRUZ. ABRIR a janela em par. Prender-me no teu SORRISO. Poder ser EGOÍSTA sem remorsos. SENTIR a brisa da noite na pele. Ouvir vozes num murmúrio DISTANTE. SABOREAR uma descoberta. Descolar a ALMA do corpo. DESFRUTAR as sensações em pleno. Perseguir aquele ODOR. Poder derramar as LÁGRIMAS com aqueles acordes. PERDER-ME por aquele trilho. DESLIGAR. Será isso VIVER ou MORRER?
Já dizia a canção:
...
But if this ever changin' world
in which we live in
Makes you give in and cry
Say live and let die
...
Live and let die
O que nos faz felizes numa relação? Assumindo como premissa que para mantermos uma relação é necessário estarmos felizes com a partilha da nossa vida com outrem, o que nos prende verdadeiramente nesse estado conjunto de existência?
É fácil identificarmos os limites a partir dos quais a relação deixa de ser viável (pelo menos em teoria, pois depende sempre muito das circunstâncias, "atenuantes" ou desculpas que inventamos para nós próprios, quando o limite ultrapassado parece ser menor do que a perda da relação). Os "não's" das relações parecem teoricamente simples. E os "sim's"?
Os românticos dirão: o amor verdadeiro.
Os materialistas dirão: a estabilidade financeira.
Os egoístas dirão: a minha felicidade, auto-estima, bem-estar, conforto.
Os preguiçosos dirão: a rotina tranquila dos hábitos conhecidos.
Os tradicionais dirão: o orgulho nos papéis sociais e o cumprimento das convenções sociais.
Os idealistas dirão: a construção de um novo caminho a dois, de princípios de vida, de sonhos desenhados e perseguidos em conjunto.
Os solitários e cansados: uma companhia de vida.
Os que sofrem do complexo de inferioridade: uma prova/demonstração social do seu valor.
Os religiosos: o compromisso assumido.
Tudo depende de quem somos em determinado momento, do que sentimos e do que esperamos do outro. E se assim é, as relações têm forçosamente de evoluir (especialmente se mantidas com a mesma pessoa). Também o outro vai mudando.
Acho que é isso que nos faz felizes numa relação: a sua evolução. O que começa com uma paixão e se funde num amor, o que começa num encontro casual e se prolonga numa vida, o que começa sozinho e se multiplica na alegria dos filhos e numa companhia, o que começa numa brincadeira e se desenvolve numa partilha de objectivos de vida.
Ao longo de uma relação, vamos subindo às alegrias do mundo a dois e descendo às tristezas da decepção. Vamos conhecendo como o outro se relaciona, não necessariamente como é. O que nos prende numa relação, é essa vontade, sustentada na razão ou na insanidade de querermos ter ao nosso lado o outro. Seja qual for a razão, é o querer estar com o outro.
Não sei se realmente precisamos de estar (fora o detalhe da sobrevivência da espécie), não sei se deveríamos mesmo estar em certas relações... só sei que enquanto quisermos estar não existe nada que nos faça saltar do barco, mesmo que afundemos nele.
Mas tenho a certeza de uma coisa, se a razão para a qual queremos estar numa relação não for estar com o outro para sermos felizes, nunca o seremos, por mais desculpas subconscientes que inventemos. Amor, filhos, dinheiro, convenções sociais, segurança... seja qual for a fonte da nossa felicidade. A nossa relação tem de conseguir gerar, manter e evoluir a nossa necessidade de ser felizes.
Portas de Casa
Portas do Contra
Portas de Mãe
Portas de Mulher
Portas de Pensamentos