Não, não desapareci. Mais ou menos... acho que o meu eu nestes tempos tem andado ausente. Escondido, resguardado, protegido, exilado. Talvez para prolongar o estado de sanidade por mais tempo, talvez como medida desesperada para me manter.
A vida nem sempre é fácil. E apesar de ter tudo o que sonhei, tudo com que muitos sonham, apesar de parecer que tenho mesmo tudo... há o reverso da medalha: que é manter tudo isto. Durante estas semanas convivem aqui por casa, 24x7, um marido e dois filhos (4 meses e 3 anos). Só quem passou por isto ou está a passar como eu, pode compreender do que falo. Do que existe de bom e do que marca pelo mal. Têm existido verdadeiros momentos de desespero, de angustia, de tristeza, de saudade, de culpa, de remorso... Sentir que nem sempre se consegue fazer o melhor e que se vai marcando a vida das criaturinhas não no mundo ideal que gostaríamos de lhes pintar, mas no mundo real das falhas e limitações humanas.
Li à muito tempo, num livro do qual não recordo o titulo ou a história (talvez por avidez literária de devorar o livro numa tarde ou de falta de interesse suscitado pelo mesmo) uma passagem em que descreviam a protagonista pelos olhos desta, como se fosse uma terceira pessoa, a partir de um reflexo da sua própria imagem num vidro de um transporte público. Só mais tarde a mesma se apercebeu que era ela, essa figura já desconhecida e tão longe de si... pareço eu. Acho que se tivesse tempo para me observar sem me esperar encontrar, não me reconheceria. Ando demasiado cansada. Demasiado frustrada. Demasiado desiludida. Demasiado impotente. Eu bem tento.
E em breve - para a semana - o pirata regressará ao colégio. Só quem é pai imagina a birra, o choro e o que custará deixá-lo em lágrimas, desgrudá-lo do colo e passá-lo para outro onde só estará uns minutos, vê-lo ficar vermelho, triste e não entender por que raio tenho de me ir embora. Afinal porque tenho mesmo de ir?
Depois mais duas semanitas e a pequena também irá para a escola. E eu regressarei ao trabalho. Voltará a rotina. E passarão dias, meses e anos... Viver-se-á uma vida.
Estou feliz. Talvez não consiga valorizar como esta felicidade merecia. Mas estou feliz. Só muito cansada. Muito mesmo.
E só para que saibam que a mudança é a sério, hoje mudei para o Meo (passo a publicidade) e o comando é mesmo MEU!
Oficialmente na era do comodismo. O meu lar ostenta mais um dos índices da modernidade urbana: um novo televisor, agora no quarto.
Sempre tive o principio primitivo que o quarto, qual caverna acolhedora não deveria ser irradiado por aparelhos eléctricos demasiado sofisticados e deslocados para o seu objectivo principal: bem estar (a dormir, a escolher roupa... e outros prazeres da vida). Máquinas permitidas: telemóvel - acessório indispensável para conseguir acordar e aparelho para ouvir o baby.
Mas agora eis que mal acordo tenho uma visão do LCD 37''. Enorme, fantástico... Vamos poupar imenso no aquecimento e nas idas nocturnas ao frigorífico que agora assume uma distância impossível cujo primeiro passo é sair da cama...
Preciso de contratar urgentemente uma empregada para preparar e levar o pequeno almoço à cama, um engenheiro para implementar um sistema automatizado rolante para me deslizar suavemente à casa de banho aquecida, um estilista para me vestir e .... acho que para o Natal é só mesmo isto...
Os anos passam e o conforto assume definitivamente um dos valores mais importantes. Para uns pode ser apenas um lado fútil, mas sem futilidades a vida perde muita graça, não é?
Portas de Casa
Portas do Contra
Portas de Mãe
Portas de Mulher
Portas de Pensamentos