Questiono-me se existem anjos da guarda.
Existem teorias quase religiões que acreditam na existência destes seres “mitológicos”. Em hierarquias definidas, com nomes e vocações diferentes. Muito para além do ser-anjo do bebé no céu de faces coradinhas e caracóis dourados…
Afinal existiram mesmo entidades espirituais que nos acompanham desde o nascimento? Se sim, será que partilham das nossas emoções? Será que ouvem os nossos pensamentos? Será que compreendem as nossas acções? Será que nos defendem perante os anjos dos outros? Todos os anjos são bons ou também existem anjos maus, tipo a consciência do diabinho? Os anjos influenciam as nossas acções? São espíritos? São anjos exclusivos de cada um? Como nascem os anjos? E quando morremos os anjos também morrem?
Por vezes há momentos na vida em que parece mesmo que está ali uma mãozinha extra, um conforto especial, uma coincidência estranha.
Não tenho uma opinião formada sobre este tema. Sei que há imensa literatura sobre anjos e a sua (suposta) ligação com a natureza humana.
Lembrei-me hoje disto. Parecia que o único raio de sol estava a brilhar de uma forma estranha enquanto estávamos à espera na rua para entrar no restaurante.
PS – a luz estranha era apenas o reflexo da água do ar condicionado que estava a chover em cima de nós…
Já muito se escreveu e ainda escreverá sobre a visita do Papa. Algumas coisas serão mentiras, outras especulações e outras por verdades que sejam, não interessam a ninguém. Como os tais sapatos que a Prada lhe faz questão de doar (que raio de campanha de marketing).
Escrever sobre esta visita, neste humilde blog sem qualquer patrocínio religioso e infelizmente sem qualquer entrega gratuita de sapatinhos Prada, tem apenas um objectivo: escoar para aqui a minha raiva pessoal por todas estas hipocrisias, que ultrapassam o escandaloso, assumindo-se ignóbeis, arrogantes e cruéis.
Vem visitar Portugal o líder da religião com mais seguidores no território. Pareceria bem. Mais uma felicidade do povo (fé, fado e futebol), mais um apelo turístico, mais um impulso para a economia, mais reconhecimento internacional do País.
Mas vejamos:
Líder religioso? De quem os fiéis seguem o exemplo? Dos padres que ouvem? Das mensagens imperceptíveis do alto de uma varanda na praça de S. Pedro? Das missas que frequentam? Do conforto das orações? Das histórias da Bíblia? Das imagens dos santos? Quem é o líder?
Mais seguidores? Tenho para mim que os católicos são os menos fervorosos, aqueles com menos fé. São, mas logo dizem-se não praticantes (o que será isso?). São, mas para as festas tradicionais, que usufruem sem saber porquê ou se identificar com o significado, tais como os rituais que cumprem na rotina da obrigação social. Seguidores?
Turístico? Todos sabemos a qualidade do turismo que isto atrai, basta olhar para Fátima e ver tudo que é a ilegalidade do aproveitar a oportunidade. Santinhos e afins inflacionados que parecem saídos de lojas dos chineses. Restaurantes caros e sem qualidade. Turismo? E quem são os turistas? O que compram?
Impulso para a economia? O país vai parar por concessão de dispensa ao trabalho. O trânsito vai ficar caótico. Quem comprará o merchandising que não foi fabricado em Portugal? Quem suportará as despesas de organização e o fabrico de tão sofisticados palcos, cadeiras, repastos e afins? O que fica do que se investiu?
Para mim estas visitas são de uma hipocrisia desprezível. O património de uma igreja que se apresenta com tanta ostentação, tanto ouro, tanta dimensão, que apela à caridade e beatiza os pobres e os sacrificados, os torturados e os afins. Tanta pobreza neste mundo, tanta dificuldade, tanta miséria e sofrimento. E fazem-se estas visitas. Oram-se uns discursos. Para dar alento ao povo? Para ajudar a suportar a vida? Para evangelizar uma fé?
Será certamente muito importante para quem vive verdadeiramente na fé professada por esta igreja, ver em carne e osso este santo padre imbuído do Espírito Santo. Fé é fé. É como o amor. Inexplicável. E muitos serão os belos mistérios e milagres…
Mas no meio de todo o sofrimento do mundo onde está a Mão desse amor? Quem ajuda as crianças raptadas e obrigadas a coisas que não imaginamos e os corações para sempre angustiados dos pais? Quem ajuda aqueles que morrem e ficam com vidas interrompidas, deixando famílias em desespero? Quem ajuda aqueles que estão no meio das guerras e morrem de fome e doenças? Quem ajuda aqueles que por fruto de desastres naturais ficam sem nada e viram morrer filhos, pais e irmãos? Quem ajuda quem vive injustiçado, ameaçado? Quem ajuda uma criança inocente com cancro e outras doenças e a dor desses pais? Quem ajuda os que de repente se vêem incapacitados, abandonados, sozinhos? Quem ajuda os que choram em silêncio, aos gritos por uma felicidade, por uma saúde, por uma vida? E nunca mais acabaria…
Quem?
Este vazio e estas diferenças são mais um espinho e um peso na cruz do mundo.
Costuma ir no comboio, onde deixo os meus últimos resquícios de sono ao abandono, uma deficiente visual. Não me inibo de usar o termo deficiente. Nem os próprios deveriam ficar ofendidos, é o mesmo de chamar pretos aos que têm a pele preta... Tudo depende do tom ou da intenção por detrás das palavras e não das palavras em si.
Encontrei agora esta frase e decidi que tinha que a evidenciar, espalhar e fazer-se ouvir:
George Orwell
Aproxima-se o dia dos namorados. E já sei que contrariamente a todas as estatísticas reais do consumo, a nossa grande sociedade culta e rebelde dirá que não faz sentido mais uma data forçada de comemoração, mais uma desculpa para o consumo, que irritam todos aqueles cartõezinhos de clichés e ursinhos de pêlo e ácaros. Dizem, mas compram, dizem, marcam o tal jantar e até dizem os "amo-tes" banais do costume, como quem diz bom dia ao vizinho.
Até que não discordo. Eu que abomino no que se tornaram os aniversários, o natal e outras festividades comerciais até simpatizo com esta data. E porquê?
Correspondendo ao actual 15 de Fevereiro, festejava-se na Roma antiga as festas Lupercais (agora associadas ao carnaval!). Basicamente após uns sacrifícios, os ilustres patrícios sacerdotes, manchados de sangue, chicoteavam com couro dos animais sacrificados as mulheres voluntárias em honra da fertilidade. Acreditava-se que essa cerimónia servia para espantar os maus espíritos e para purificar a cidade, assim como para liberar a saúde e a fertilidade às pessoas açoitadas pelos lupercos.Tratava-se também dum rito de passagem, simbolizando a morte e a ressurreição celebrando assim a vida. Era no decorrer desta festa que se sorteavam os nomes dos jovens que deveriam permanecer juntos até ao final das celebrações, sendo esta uma forma de aproximação que muitas vezes conduzia ao afecto e por sua vez ao casamento.
Mas como tudo o que era pagão, lá chegou a igreja pouco criativa e consensual e a festividade foi convertida no dia dos namorados celebrado a 14 de Fevereiro e associado ao santo Valentim.
O porquê do dia de são Valentim, já todos sabem. O padre que à revelia casava os amantes em segredo foi executado no dia 14 de Fevereiro. E a sua santidade advém do milagre de ter devolvido a visão à filha do próprio carcereiro pela qual se apaixonou.
Nestas surfadas sem mar da Internet descobri recentemente os blogs de um casal gay. Confesso - mea culpa - que a curiosidade em acompanhar este dia a dia me levou a ler os posts mais recentes e a espiá-los regularmente.
Nunca concordei com discriminações pelas preferências sexuais de cada um. Acho que às vezes o próprio facto de se "verem obrigados" a comunicar ao mundo que são gays já é um factor que leva à discriminação. Os hetero não andam por aí em reuniões familiares, profissionais ou reality shows a assumirem-se, pois não? O que é que a sociedade tem a ver se o prazer de cada um passa por um homem, mulher ou ambos?
E quanto à religião? Se a Igreja se preocupasse mais em distribuir a riqueza que tem pelos pobres (a que apela caridade e generosidade aos outros), em vez de culpabilizar e tornar pecaminosa a felicidade das suas ovelhas, o rebanho pastava muito mais.
Pessoalmente ainda não convivi de perto com nenhum gay. Homem ou Mulher. Sim, porque lá porque são gays não deixam de ser Homens ou Mulheres. Não é? O facto de ser gay não implica necessariamente um passo para a transexualidade.
O que odeio mesmo relacionado com a discriminação, nem é o por de lado as pessoas (acredito que existam mentes menos abertas que se sintam desconfortáveis e há que respeitá-las também) é a hipocrisia. É aqueles velhos do Restelo que infelizes na sua vida resolvem atacar a felicidade dos outros acusando-os de anormalidade, imoralidade e heresia. Apenas porque vêm o amor entre os outros. O amor que não têm. E quem sabe, a realização de fantasias para as quais não têm coragem de viver.
As minhas coisas idiotas favoritas sobre a homessuaxilidade:
Por ser gay...
Larguem os tabus e sejam felizes. Acredito que se as pessoas fossem sinceras com elas próprias, podiam ser muito mais felizes com a sua vida. E quem é feliz com a sua vida não se preocupa em encontrar telhados de vidro nos outros.
Às vezes parece que o mundo cai. Tomar consciência (mesmo que por breves momentos) da fragilidade da base sobre a qual construímos a nossa vida, das relações que estabelecemos, das rotas dos barcos que nos impedem de ser apenas uma ilha deserta... é sempre dolorosamente impotente.
É isso que para mim significa a injustiça: uma impotência desesperante. Uma incapacidade de não compreender, ou se compreender não aceitar, ou se aceitar não concordar, ou se não concordar não ser capaz de alterar. E o não conseguir alterar, mudar o que para mim é errado cai no precipício da injustiça.
O planeta pode estar condenado à extinção. Tudo tem um fim e talvez a nossa presença egoísta e cega tenha acelerado a colisão com o abismo.
Existem guerras fundamentalistas, fome, miséria, dor, abandono, tortura. Tudo terá uma razão dizem, talvez seja simplesmente o caos do desgoverno animal.
Há dor nos olhos de crianças. Talvez seja o castigo de pecados de vidas anteriores. Injustiças simplesmente.
Segredos, sangue, lágrimas, traições, mentiras, angústia, solidão, silêncio.
Como em tudo há injustiças de proporções enormes e outras mais singelas. Não sei ao certo com que régua as medir. Se pela profundidade do buraco negro, se pelo número de pessoas afectadas, se pela sua duração.
Há injustiças tão "simples" como a ausência de um sorriso necessário negado sem razão.
Acredita-se em algo superior, divino. Talvez movido por uma necessidade desesperada. Mas não vejo que divindades a seguir que nutram amor pelos seus filhos poderiam aceitar tudo isto, impávidas, ausentes.
Há quem tenha uma fé e acredite que talvez tudo isto seja o necessário para poder usufruir de algo melhor além. Como sei que esse melhor, é o melhor para mim, ou para ti que és tão diferente de mim? Um melhor igual para todos?!
Outros visionários ainda aqui na Terra descobrem milagres que abrem luzes privadas nas trevas. Luzes sempre envoltas em mistérios clericais.
Para quê tudo isto? Que sabedoria transcendental está por detrás de tudo isto? O futuro poderá até ser melhor. Mas a vida do presente, o tempo em que se vive não interessa? Sofram agora, aguentem, amanhã será melhor, terão recompensas eternas...
Parece a chantagem aos bebés: come a sopa toda (sabemos que aquela é particularmente horrível) agora, que daqui a nada já vez os desenhos animados. Fazemo-lo por que é o melhor. Porque naquela sopa estão os nutrientes para a sua saúde. Mas que forças, que melhorias vêem de toda esta injustiça? Fica por acaso o ser humano melhor? Mais forte? Mais crente?
E entretanto há quem viva tão bem no agora. E só por isso serão castigados no além? Ou esses são mais filhos que os outros que vivem mal agora? Talvez exista uma borracha mágica que elimine tudo ou outra forma de compensação. Não consigo perceber a injustiça.
Não consigo descobrir essa fonte de salvação e força que jorra sem parar.
Portas de Casa
Portas do Contra
Portas de Mãe
Portas de Mulher
Portas de Pensamentos